
Alegria do centro
Por causa do aspecto decadente, o Valongo foi, durante um bom tempo, uma pedra nos planos da prefeitura para expandir o projeto Alegra Centro. A idéia é recuperar as instalações históricas do centro de Santos, com a ocupação de imóveis antigos pelas diversas empresas que atuam na cidade. Em várias regiões centrais, o projeto teve êxito e conquistou investidores nos imóveis, mas no Valongo não se obteve o mesmo resultado. Os marginais, os usuários de drogas e os problemas estruturais impediam a viabilidade do projeto. Quem tinha dinheiro para ocupar as construções fugia do local como o diabo da cruz. Porém, depois da Petrobrás, tudo mudou. Ao repassar o terreno por R$ 15.180.000,00, a prefeitura colocou um ponto final num enorme problema que parecia sem solução. E como num passe de mágica, todos voltaram os olhos para o bairro, as propostas surgiram e os imóveis recuperaram o valor de mercado, como nos tempos em que o Valongo era um dos locais mais badalados de Santos. - A cidade escolheu e estimulou a Petrobrás a definir o centro histórico, o centro comercial de Santos, como sendo o local para a implantação da sede dessa importante unidade - disse o prefeito reeleito de Santos, João Paulo Tavares Papa, após a inauguração do curso Técnico de Petróleo e Gás, oferecido pela prefeitura em parceria com a Petrobrás, no inicio de dezembro.
Depois que as três torres estiverem construídas, dá para imaginar uma nova paisagem, um novo cartão postal. Recuperação do ambiente urbano, fachadas reformadas, a instalação de empresas e o parque tecnológico darão um novo aspecto à região e, finalmente, o Valongo ganhará os ares da modernidade. O trânsito de pessoas será constante. Os caminhoneiros vão ter que procurar outro local para encostar suas máquinas, os desocupados serão espantados.
Apesar das promessas de melhoria, o mecânico Milton César Ribeiro, que trabalha numa oficina de caminhões com piso de terra e enormes poças de óleo, não vê com bons olhos essa história da Petrobrás se instalar nas imediações. “Vai aumentar o número de prostituas e marginais”, garante. Trabalhando há cinco anos no bairro, Ribeiro, que é troncudo, usa barba como Brutus, o adversário do marinheiro Popeye na conquista do amor de Olívia Palito. Ele acredita que só existe uma solução para mudar o perfil da região: - Destruir tudo e começar do zero.
A desempregada Dora Veiga, moradora de um pequeno sobrado com antena de canal por assinatura, na Marques de Herval, espera por um choque na realidade assim quando começarem as obras. Vivendo há 14 anos no Valongo, essa caiçara de Pariquéra-açu conhece a região como a palma de sua mão, sabe das necessidades e dos desafios que precisarão ser superados para o local sair da estagnação e trilhar os caminhos da prosperidade. Como morou em várias ruas da região e foi proprietária de um dos lugares mais movimentados do Valongo, é capaz de enumerar os benefícios que o empreendimento gerará. “Os imóveis serão ocupados, o número de usuários de droga circulando pela região deve diminuir e vai aumentar a segurança”, disse a senhora que tem um agradável sorriso e passa a maior parte de seus dias na companhia de um poodle e um enorme pitbull. “Não é por medo, eu gosto da companhia deles”. Enquanto não cuida do serviço doméstico de seus ‘cachorrinhos’, observa a movimentação das pessoas da sacada do sobrado. Nesses momentos imagina um bairro transformado, com muitas oportunidades de empregos para os jovens e com todas as ‘coisas negativas’ longe deles.
É com essa mesma expectativa otimista que diariamente Fernando sonha. Ele não vê a hora dos clientes voltarem à sua sapataria, que também já foi uma loja e fábrica, que ‘exportava’ para todo o Estado de São Paulo. Nos tempos áureos, vendia em média 100 pares por dia. A Rua São Bento era uma espécie de centro nervoso do bairro. Os trens chegavam à estação, que está há poucos metros de distância, descarregavam os trabalhadores das fábricas de Cubatão, desembarcavam os turistas que visitavam as belezas de Santos e os bondes traziam gente de todos os bairros. A prosperidade era uma realidade presente em todos os lados e o comércio borbulhava. Mas isso mudou.
Como a política de transporte brasileira prioriza as rodovias em relação a outros modais, a estação ferroviária santista foi mais uma das vitimas dessa concepção de deslocamento de cargas e pessoas e também conheceu o seu fim. Os bondes deixaram de ser usados no transporte urbano para serem apenas um equipamento turístico e o Valongo, que basicamente sobrevivia dessa movimentação, estacionou. Os clientes deixaram de freqüentar os estabelecimentos e os personagens do submundo os substituíram, lojas se extinguiram, algumas foram vendidas, muitas abandonadas e poucas resistiram. Para completar, os vários planos econômicos dificultaram ainda mais a situação.
- Hoje só abro para não ficar sem fazer nada, mas tem dias que não consigo vender nenhum par de sapatos, desabafa Fernando.
Nos períodos em que passa sentado, com o cotovelo apoiado no braço do sofá, segurando o queixo, Fernando reflete muito. Nesses momentos, recorda, porém, de todas as etapas da confecção de um calçado, algo que aprendeu quando ainda estava, em idade escolar, na Ilha da Madeira. Até hoje, sabe como reconhecer o melhor couro, o corte certo para cada tipo de pé, como selecionar a linha ideal para a costura de um produto resistente e de qualidade. Com esse conhecimento, montou a Indústria e Comércio de Calçados Atlas e ensinou o oficio para aprendizes que partiram. No seu entendimento, somente a presença de uma empresa do porte de uma Petrobrás pode dar vida ao Valongo e trazer os clientes de volta: - Vai trazer mais gente e movimento para cá.
Na rua, os caminhões passam e fazem enorme barulho. - Se eles fizerem tudo o que disseram será muito bom, mas está demorando muito. Do jeito que as coisas andam é bem capaz de eu morrer antes que veja essa transformação.
Enquanto esse momento não chega, Fernando continua ali, esquecido entre as suas vivas lembranças, sonhando em reviver o que passou: - Quem não tem saudade do que é bom e não volta mais?
Por causa do aspecto decadente, o Valongo foi, durante um bom tempo, uma pedra nos planos da prefeitura para expandir o projeto Alegra Centro. A idéia é recuperar as instalações históricas do centro de Santos, com a ocupação de imóveis antigos pelas diversas empresas que atuam na cidade. Em várias regiões centrais, o projeto teve êxito e conquistou investidores nos imóveis, mas no Valongo não se obteve o mesmo resultado. Os marginais, os usuários de drogas e os problemas estruturais impediam a viabilidade do projeto. Quem tinha dinheiro para ocupar as construções fugia do local como o diabo da cruz. Porém, depois da Petrobrás, tudo mudou. Ao repassar o terreno por R$ 15.180.000,00, a prefeitura colocou um ponto final num enorme problema que parecia sem solução. E como num passe de mágica, todos voltaram os olhos para o bairro, as propostas surgiram e os imóveis recuperaram o valor de mercado, como nos tempos em que o Valongo era um dos locais mais badalados de Santos. - A cidade escolheu e estimulou a Petrobrás a definir o centro histórico, o centro comercial de Santos, como sendo o local para a implantação da sede dessa importante unidade - disse o prefeito reeleito de Santos, João Paulo Tavares Papa, após a inauguração do curso Técnico de Petróleo e Gás, oferecido pela prefeitura em parceria com a Petrobrás, no inicio de dezembro.
Depois que as três torres estiverem construídas, dá para imaginar uma nova paisagem, um novo cartão postal. Recuperação do ambiente urbano, fachadas reformadas, a instalação de empresas e o parque tecnológico darão um novo aspecto à região e, finalmente, o Valongo ganhará os ares da modernidade. O trânsito de pessoas será constante. Os caminhoneiros vão ter que procurar outro local para encostar suas máquinas, os desocupados serão espantados.
Apesar das promessas de melhoria, o mecânico Milton César Ribeiro, que trabalha numa oficina de caminhões com piso de terra e enormes poças de óleo, não vê com bons olhos essa história da Petrobrás se instalar nas imediações. “Vai aumentar o número de prostituas e marginais”, garante. Trabalhando há cinco anos no bairro, Ribeiro, que é troncudo, usa barba como Brutus, o adversário do marinheiro Popeye na conquista do amor de Olívia Palito. Ele acredita que só existe uma solução para mudar o perfil da região: - Destruir tudo e começar do zero.
A desempregada Dora Veiga, moradora de um pequeno sobrado com antena de canal por assinatura, na Marques de Herval, espera por um choque na realidade assim quando começarem as obras. Vivendo há 14 anos no Valongo, essa caiçara de Pariquéra-açu conhece a região como a palma de sua mão, sabe das necessidades e dos desafios que precisarão ser superados para o local sair da estagnação e trilhar os caminhos da prosperidade. Como morou em várias ruas da região e foi proprietária de um dos lugares mais movimentados do Valongo, é capaz de enumerar os benefícios que o empreendimento gerará. “Os imóveis serão ocupados, o número de usuários de droga circulando pela região deve diminuir e vai aumentar a segurança”, disse a senhora que tem um agradável sorriso e passa a maior parte de seus dias na companhia de um poodle e um enorme pitbull. “Não é por medo, eu gosto da companhia deles”. Enquanto não cuida do serviço doméstico de seus ‘cachorrinhos’, observa a movimentação das pessoas da sacada do sobrado. Nesses momentos imagina um bairro transformado, com muitas oportunidades de empregos para os jovens e com todas as ‘coisas negativas’ longe deles.
É com essa mesma expectativa otimista que diariamente Fernando sonha. Ele não vê a hora dos clientes voltarem à sua sapataria, que também já foi uma loja e fábrica, que ‘exportava’ para todo o Estado de São Paulo. Nos tempos áureos, vendia em média 100 pares por dia. A Rua São Bento era uma espécie de centro nervoso do bairro. Os trens chegavam à estação, que está há poucos metros de distância, descarregavam os trabalhadores das fábricas de Cubatão, desembarcavam os turistas que visitavam as belezas de Santos e os bondes traziam gente de todos os bairros. A prosperidade era uma realidade presente em todos os lados e o comércio borbulhava. Mas isso mudou.
Como a política de transporte brasileira prioriza as rodovias em relação a outros modais, a estação ferroviária santista foi mais uma das vitimas dessa concepção de deslocamento de cargas e pessoas e também conheceu o seu fim. Os bondes deixaram de ser usados no transporte urbano para serem apenas um equipamento turístico e o Valongo, que basicamente sobrevivia dessa movimentação, estacionou. Os clientes deixaram de freqüentar os estabelecimentos e os personagens do submundo os substituíram, lojas se extinguiram, algumas foram vendidas, muitas abandonadas e poucas resistiram. Para completar, os vários planos econômicos dificultaram ainda mais a situação.
- Hoje só abro para não ficar sem fazer nada, mas tem dias que não consigo vender nenhum par de sapatos, desabafa Fernando.
Nos períodos em que passa sentado, com o cotovelo apoiado no braço do sofá, segurando o queixo, Fernando reflete muito. Nesses momentos, recorda, porém, de todas as etapas da confecção de um calçado, algo que aprendeu quando ainda estava, em idade escolar, na Ilha da Madeira. Até hoje, sabe como reconhecer o melhor couro, o corte certo para cada tipo de pé, como selecionar a linha ideal para a costura de um produto resistente e de qualidade. Com esse conhecimento, montou a Indústria e Comércio de Calçados Atlas e ensinou o oficio para aprendizes que partiram. No seu entendimento, somente a presença de uma empresa do porte de uma Petrobrás pode dar vida ao Valongo e trazer os clientes de volta: - Vai trazer mais gente e movimento para cá.
Na rua, os caminhões passam e fazem enorme barulho. - Se eles fizerem tudo o que disseram será muito bom, mas está demorando muito. Do jeito que as coisas andam é bem capaz de eu morrer antes que veja essa transformação.
Enquanto esse momento não chega, Fernando continua ali, esquecido entre as suas vivas lembranças, sonhando em reviver o que passou: - Quem não tem saudade do que é bom e não volta mais?






