PALAVRAS CERTAS

Um blog de textos, idéias e bastante palavras

Terça-feira, Julho 21, 2009

Quando a Petrobrás chegar... (Parte III)


Alegria do centro

Por causa do aspecto decadente, o Valongo foi, durante um bom tempo, uma pedra nos planos da prefeitura para expandir o projeto Alegra Centro. A idéia é recuperar as instalações históricas do centro de Santos, com a ocupação de imóveis antigos pelas diversas empresas que atuam na cidade. Em várias regiões centrais, o projeto teve êxito e conquistou investidores nos imóveis, mas no Valongo não se obteve o mesmo resultado. Os marginais, os usuários de drogas e os problemas estruturais impediam a viabilidade do projeto. Quem tinha dinheiro para ocupar as construções fugia do local como o diabo da cruz. Porém, depois da Petrobrás, tudo mudou. Ao repassar o terreno por R$ 15.180.000,00, a prefeitura colocou um ponto final num enorme problema que parecia sem solução. E como num passe de mágica, todos voltaram os olhos para o bairro, as propostas surgiram e os imóveis recuperaram o valor de mercado, como nos tempos em que o Valongo era um dos locais mais badalados de Santos. - A cidade escolheu e estimulou a Petrobrás a definir o centro histórico, o centro comercial de Santos, como sendo o local para a implantação da sede dessa importante unidade - disse o prefeito reeleito de Santos, João Paulo Tavares Papa, após a inauguração do curso Técnico de Petróleo e Gás, oferecido pela prefeitura em parceria com a Petrobrás, no inicio de dezembro.
Depois que as três torres estiverem construídas, dá para imaginar uma nova paisagem, um novo cartão postal. Recuperação do ambiente urbano, fachadas reformadas, a instalação de empresas e o parque tecnológico darão um novo aspecto à região e, finalmente, o Valongo ganhará os ares da modernidade. O trânsito de pessoas será constante. Os caminhoneiros vão ter que procurar outro local para encostar suas máquinas, os desocupados serão espantados.
Apesar das promessas de melhoria, o mecânico Milton César Ribeiro, que trabalha numa oficina de caminhões com piso de terra e enormes poças de óleo, não vê com bons olhos essa história da Petrobrás se instalar nas imediações. “Vai aumentar o número de prostituas e marginais”, garante. Trabalhando há cinco anos no bairro, Ribeiro, que é troncudo, usa barba como Brutus, o adversário do marinheiro Popeye na conquista do amor de Olívia Palito. Ele acredita que só existe uma solução para mudar o perfil da região: - Destruir tudo e começar do zero.
A desempregada Dora Veiga, moradora de um pequeno sobrado com antena de canal por assinatura, na Marques de Herval, espera por um choque na realidade assim quando começarem as obras. Vivendo há 14 anos no Valongo, essa caiçara de Pariquéra-açu conhece a região como a palma de sua mão, sabe das necessidades e dos desafios que precisarão ser superados para o local sair da estagnação e trilhar os caminhos da prosperidade. Como morou em várias ruas da região e foi proprietária de um dos lugares mais movimentados do Valongo, é capaz de enumerar os benefícios que o empreendimento gerará. “Os imóveis serão ocupados, o número de usuários de droga circulando pela região deve diminuir e vai aumentar a segurança”, disse a senhora que tem um agradável sorriso e passa a maior parte de seus dias na companhia de um poodle e um enorme pitbull. “Não é por medo, eu gosto da companhia deles”. Enquanto não cuida do serviço doméstico de seus ‘cachorrinhos’, observa a movimentação das pessoas da sacada do sobrado. Nesses momentos imagina um bairro transformado, com muitas oportunidades de empregos para os jovens e com todas as ‘coisas negativas’ longe deles.
É com essa mesma expectativa otimista que diariamente Fernando sonha. Ele não vê a hora dos clientes voltarem à sua sapataria, que também já foi uma loja e fábrica, que ‘exportava’ para todo o Estado de São Paulo. Nos tempos áureos, vendia em média 100 pares por dia. A Rua São Bento era uma espécie de centro nervoso do bairro. Os trens chegavam à estação, que está há poucos metros de distância, descarregavam os trabalhadores das fábricas de Cubatão, desembarcavam os turistas que visitavam as belezas de Santos e os bondes traziam gente de todos os bairros. A prosperidade era uma realidade presente em todos os lados e o comércio borbulhava. Mas isso mudou.
Como a política de transporte brasileira prioriza as rodovias em relação a outros modais, a estação ferroviária santista foi mais uma das vitimas dessa concepção de deslocamento de cargas e pessoas e também conheceu o seu fim. Os bondes deixaram de ser usados no transporte urbano para serem apenas um equipamento turístico e o Valongo, que basicamente sobrevivia dessa movimentação, estacionou. Os clientes deixaram de freqüentar os estabelecimentos e os personagens do submundo os substituíram, lojas se extinguiram, algumas foram vendidas, muitas abandonadas e poucas resistiram. Para completar, os vários planos econômicos dificultaram ainda mais a situação.
- Hoje só abro para não ficar sem fazer nada, mas tem dias que não consigo vender nenhum par de sapatos, desabafa Fernando.
Nos períodos em que passa sentado, com o cotovelo apoiado no braço do sofá, segurando o queixo, Fernando reflete muito. Nesses momentos, recorda, porém, de todas as etapas da confecção de um calçado, algo que aprendeu quando ainda estava, em idade escolar, na Ilha da Madeira. Até hoje, sabe como reconhecer o melhor couro, o corte certo para cada tipo de pé, como selecionar a linha ideal para a costura de um produto resistente e de qualidade. Com esse conhecimento, montou a Indústria e Comércio de Calçados Atlas e ensinou o oficio para aprendizes que partiram. No seu entendimento, somente a presença de uma empresa do porte de uma Petrobrás pode dar vida ao Valongo e trazer os clientes de volta: - Vai trazer mais gente e movimento para cá.
Na rua, os caminhões passam e fazem enorme barulho. - Se eles fizerem tudo o que disseram será muito bom, mas está demorando muito. Do jeito que as coisas andam é bem capaz de eu morrer antes que veja essa transformação.
Enquanto esse momento não chega, Fernando continua ali, esquecido entre as suas vivas lembranças, sonhando em reviver o que passou: - Quem não tem saudade do que é bom e não volta mais?

Terça-feira, Julho 14, 2009

Quando a Petrobrás chegar... (Parte II)

O sonho de Beth
A Marquês de Herval, uma das entradas principais do empreendimento, é uma rua apertada. Isso acontece mais pela presença constante de caminhões, que normalmente estacionam por ali antes de chegar aos terminais do porto, do que pela falta de espaço. Na mesma via também existem oficinas, borracharias, locais que naturalmente atraem os motoristas com suas máquinas gigantes. Além disso, os veículos estão sempre carregando e descarregando mercadorias nas transportadoras e empresas de logística. Há pouquíssimas residências. A Ong Vida e Solidariedade, que auxilia pessoas carentes, também está na mesma rua. O ‘Bar Lanchonete Amigo Carreteiro’, na esquina com a Rua São Bento, freqüentado por todo tipo de pessoas, quase nunca está vazio. É também na Marquês de Herval, colado ao muro de um dos portões de entrada do terreno da estatal, que Elizabeth de Souza, de 43 anos, tira o seu sustento. Há oito meses, essa mulher de pele morena e com rabo de cavalo construiu, com ajuda de amigos, um pequeno estabelecimento comercial, que ocupa toda a calçada. O local é uma birosca.
Para levantar o seu empreendimento, primeiro retirou todo o entulho do local, arranjou algumas madeiras e telhas numa demolição, serrou, pregou, encaixou, juntou com um balcão que já possuía e no final pintou tudo de azul claro. Convivendo com a simplicidade e deficiências de um barraco, ela tem espaço para trabalhar e vender vários tipos de cachaça, salgadinhos, refrigerantes, doces, balas, mas não serve refeições. A decoração é composta por uma placa de fórmica branca, com os preços dos produtos escritos à mão. Logo abaixo, um aviso, rascunhado com giz branco, em uma lousa infantil, avisa: “Não vendemos fiado!” Três calotas baratas de carro (onde deve estar a outra?), pregadas no muro do terreno de onde será sede da Petrobrás em Santos, compõem o único arranjo do lugar, que funciona de segunda a sábado, das 7h30 às 22 horas e quase sempre está escondido atrás dos caminhões estacionados por ali.
Elizabeth, ou Beth como é conhecida por todos, não nasceu no litoral, mas foi uma dos primeiros moradores da Baixada a sentirem na pele os impactos da presença da Petrobrás. Ela, os dois filhos e 39 famílias foram despejados do cortiço em que moravam por bem em frente de onde será a sede da estatal. Com a supervalorização dos imóveis das imediações, eles se tornaram mais umas das vitimas de algo normal em regiões que recebem grandes empreendimentos: especulação imobiliária. Empresas, investidores ou simplesmente aproveitadores, adquirem terrenos e casas por um custo baixo, desalojam os menos abastados, esperam a região ganhar valorização, para depois, revender por preços infinitamente superiores. Seguindo o roteiro dessa prática, o novo proprietário levantou paredes e lacrou todas as entradas do imóvel que abrigava o enorme cortiço. Agora, ele aguarda o momento certo de agir.
Beth lembra-se como se fosse hoje o dia em que foi comunicada de que seria obrigada a deixar a casa em que viveu durante oito anos. Em maio do ano passado, o antigo dono reuniu os moradores, homens, mulheres e crianças, e anunciou que precisariam procurar outro local para morar, pois o imóvel estava vendido e o novo proprietário exigia desocupação imediata. Como todos, naquele fatídico dia do quinto mês do ano, Beth, mãe de duas crianças, foi pega de surpresa. E cada morador teve que dar jeito na sua própria vida.
- Assim como as outras famílias, tivemos que sair, com uma mão na frente e outra atrás.
Pior que perder o teto, foi ver evaporar, de uma hora para outra, a freguesia que construiu durante os anos que permaneceu no cortiço e que lhe garantia a sobrevivência. No local, vendia de tudo, servia refeições, era conhecida e respeitada por todo mundo. Em pouco tempo, encontrou uma casa para morar com os filhos no bairro do Mercado, mas algo ainda a incomodava: como conseguir emprego? Com poucos anos de estudo, recusando-se a “limpar chão” e apenas com experiência de venda, procurou trabalho, mas não conseguiu. Passou alguns dias pensando, analisou os riscos e decidiu atravessar a rua e remontar o antigo negócio em novo endereço. Hoje, o seu pequeno comercio é freqüentado por caminhoneiros, funcionários das empresas da região e andarilhos que circulam pelas ruas do Valongo: – Não é mais a mesma coisa. Mas consigo sobreviver.
Natural de Araraquara, Beth está em Santos há 13 anos, trabalhando por conta própria. Dessa forma, conseguiu criar dois filhos e conquistar dignidade. Com um sorriso permanente no rosto e um jeito interiorano, além do comércio no cortiço, vendeu refeições para os trabalhadores do porto. Porém, tudo mudou desde que foi anunciado o novo empreendimento.
- Até agora a Petrobrás só me deu prejuízos. Vamos ver se vai trazer alguma coisa de bom.
Mesmo assim não desiste e deseja reverter a situação desfavorável, conquistar algum lucro e condições para realizar um sonho: a casa própria. Com o início das obras previstas para o primeiro semestre de 2009, ela pretende permanecer no local, vender seus produtos para os trabalhadores que irão erguer os prédios, fazer economias e voltar para o interior. E assim dar a segurança de um teto para os filhos, reviver um pouco dos bons tempos de menina e fazer algo que adora: “pegar fruto no pé”. Esta é a sua motivação, seu sonho encantado, caso as autoridades municipais permitam que ela fique por ali, com sua birosca: - Eu sei que estou errada, mas só quero poder ficar os três anos da obra, ajuntar meu dinheirinho, construir a minha casa e ir embora.
Dois homens que bebiam tubaína e falavam ao rádio, despedem-se.
-Até mais Beth.
- Tchau, ela responde.
Em seguida, um homossexual de codinome Carolina encosta e tenta vender alguns pacotes de bolachas wafer para a comerciante. Sem sucesso, pede uma dose de ‘cachaça com raízes’. Acende um cigarro. Enquanto atende o freguês e fala de sua história ao repórter, a comerciante reconhece que leva uma vida difícil, mas mesmo assim não demonstra tristeza.
- Aqui tudo é caro. Para mim, Santos é uma ilusão. Estou acostumada a uma vida mais simples.
Uma televisão de 14 polegadas está desligada sobre um balcão ou freezer, não sei bem, no fundo do estabelecimento.
- O que eu ganhar em três anos para mim será lucro. Já estou ciente que terei que sair. Não vou ficar aqui para sempre. Mas só peço que me dêem um espaço de tempo – implora falando de forma tranqüila e pausada. – Depois que a Petrobrás construir os prédios chiques dela, não vou criar caso para sair daqui. Eu aprendi uma coisa nessa vida: só podemos brigar quando temos razão, mas quando não se tem razão não se deve brigar.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Quando a Petrobrás chegar.. (Parte I) .

Texto e fotos: Uilians Uilson Santos


Fernando está sentado olhando a rua. É dessa forma que, há alguns anos, tem passado a maioria de seus dias: observando o movimento dos pedestres, o fluxo dos veículos na via de paralelepípedo, enquanto pensa sobre tudo o que passou em seus 78 anos de vida. Às vezes, suspira e deixa escapar uma frase que demonstra profunda ansiedade: - Ela não chega. Todo mundo diz que ela virá, mas não chega.
De aparência triste e saudosista, seu Fernando, como é conhecido na região, é Fernando da Silva Figüeiro, um português de berço e brasileiro por opção, que há 58 anos desembarcou no país para viver, construir uma família e conquistar um patrimônio com o conhecimento que adquiriu em sua terra: a sapataria.
Durante muito tempo, conseguiu. Mas os anos se sucederam, o dinheiro acabou e os fregueses partiram. Hoje, ele passa horas cercado pelos restos de uma prosperidade saudosista. As caixas de sapatos, empoeiradas e empilhadas, guardam o que um dia foram fonte de sua riqueza. Ferramentas paradas, maquinas adormecidas, tudo está lá, debaixo de um teto esburacado e sob o olhar distante dos santos católicos colados na porta com decoração de Papai Noel. A montanha de pedidos esquecidos nas sobras da oficina são os únicos indícios dos fregueses que um dia passaram por ali.
A expectativa desse homem está na chegada de um empreendimento que promete revolucionar toda a região. Com ele chegarão mais pessoas, um novo fôlego de vida e possíveis clientes. Estamos no bairro do Valongo, centro histórico de Santos, onde nos próximos meses, a Petrobrás, que já está na cidade, dará inicio às obras de construção da sede definitiva da Unidade de Negócios da Bacia de Santos, que cuidará de todos os detalhes da exploração dos mega-campos de petróleo do Pré-Sal a centenas quilômetros de distancia em alto mar.
Da futura sede administrativa, sairão ordens e diretrizes a serem aplicadas nas frentes de trabalho entre Cabo Frio, no Rio de Janeiro, até Florianópolis, Santa Catarina. Os números que cercam essa construção dão a dimensão da magnitude deste empreendimento. Serão três torres, numa área de 42 mil metros quadrados, quando estiverem concluídas, em meados de 2012, 6 mil funcionários, apenas da Petrobrás, trabalharão no local. Para que sejam exploradas as gigantescas reservas de óleo e gás, em 10 anos devem ser investidos 18 bilhões de reais só na Bacia de Santos. A previsão é que a Unidade de Negócio gere também, na Baixada Santista, mais 20 mil postos de emprego de forma indireta. Além de movimentar a economia regional, será um pólo de desenvolvimento que se estenderá por todo país.
No entanto, para isso se tornar realidade, muita coisa ainda precisa ser feita. O local que será a sede, hoje não passa de um terreno baldio, repleto de mato e construções apodrecidas. A imagem também pode ser vista como um retrato do que se tornou a vizinhança.
O Valongo tem a igreja, que dá nome ao bairro, situada à Rua São Bento. Construída em 1640, guarda peças de imenso valor histórico e sagrado. Ao lado, está a Estação Ferroviária que, por muito tempo, foi um dos principais acessos entre o porto e a capital. Ruas de paralelepípedo, empresas de logística, bares, armazéns, transportadoras, residências, ruínas, Ong, moradores de rua, marginais e muitos caminhões dividem o mesmo espaço. Mesmo a aproximadamente um quilômetro da Praça Mauá, marco zero da cidade, o bairro não acompanhou a evolução e permaneceu estático e esquecido. Segundo a própria Petrobrás, esta região da cidade foi escolhida por atender critérios técnicos, como a proximidade do porto (está a pouco mais de um quarteirão do terminal), fácil acesso ao Sistema Anchieta-Imigrantes (ligação entre a Baixada e São Paulo) e por estar praticamente ao lado da Base Aérea de Santos, onde deve ser construído o Aeroporto Civil Metropolitano da Baixada Santista (antigo sonho regional).
Enquanto que na avenida portuária os caminhões transportam boa parte da riqueza brasileira, num balé frenético, que em vários momentos lembra a movimentação sanguínea nas artérias, nas ruas do Valongo, ao redor de onde serão as torres, é como se o tempo estivesse parado, aguardando por dias melhores que teimam em não aparecer.
Em frente à estação, fica o Largo Marquês do Monte Alegre onde estão as ruínas de um antigo Casarão que no futuro deve abrigar o Museu Pelé. A sinuosa Rua Senador Cristiano Otoni nada mais é do que uma via de acesso ao porto. Como o muro neste local é baixo, dá para ver que um vigilante toma conta do que sobrou do passado próspero que, espera-se logo deve voltar. Deste ponto, como há mais espaço, será possível contemplar as construções quando as torres estiverem concluídas.

Sexta-feira, Março 13, 2009

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Boa sorte!

Yes we Can!

Sábado, Outubro 25, 2008

A Salvação de Maria


Maria Aparecida nasceu em uma região pobre de Minas Gerais. Por causa da morte do pai, ela acabou sendo internada num convento. Até desejou tornar-se freira, mas por causa do racismo, o sonho foi frustrado. Mudou-se para São Paulo, acabou agredida por uma ex-patroa. Para sobreviver, ao lado da mãe, trabalhou como doméstica. Mesmo conhecendo os companheiros e pais de seus quatro filhos, carregava um vazio dentro do peito que a incomodava.
Por mais que tentasse, nunca encontrou a resposta. Buscou alternativas na igreja que lhe rejeitou, tentou a umbanda e o espiritismo kadercista, mas nada aconteceu. A história de Maria só começou a mudar quando descobriu que a palavra de Deus era o sentido para nortear sua vida. O primeiro sinal de que era este o caminho, surgiu quando freqüentava a igreja Matriz de São Vicente. Na época, um padre, adepto da renovação carismática, implantou a visão que tentou revolucionar o jeito católico de viver o cristianismo. “Eu me sentia melhor”, revela.
Com a saída do sacerdote, a chama de Maria esfriou. Tentou a mesa branca, mas não era o que procurava. Quando aceitou um dos vários convites de uma amiga para visitar uma igreja evangélica, os sinais da mudança surgiram. Mesmo não entendendo muito bem o culto, Maria, pela primeira vez, teve a certeza de que Deus falava com ela: “Por ter ouvido e obedecido ao meu chamado, naquele momento, o Senhor tirava da sepultura um ente querido”, disse um profeta. Além do vazio, o envolvimento do neto com a criminalidade, era a maior das preocupações.
E tudo aconteceu como o profeta dissera: “Quando voltávamos para casa, uma viatura, em alta velocidade, veio em nossa direção e só não nos atropelou, porque nos jogamos no chão. Assim que dobrou a esquina, escutamos três tiros”. Apesar de sua filha gritar o nome do neto, Maria sentia que nada havia acontecido. Conversando com as testemunhas, descobriu que ‘o menino’ escapou à perseguição policial. “Um vizinho me disse que o meu neto voava, parecia que estava sendo suspendido pelos braços, como se alguém o carregasse”.
O milagre não resolveu todos os seus problemas e Maria adoeceu. Depressiva, passou a tomar remédios e fazer acompanhamento psiquiátrico. Durante as crises caminhava sem rumo, as netas a resgatavam e nunca conseguia se lembrar de nada. A virada ocorreu durante uma das andanças. Sentiu-se mal em frente de um templo evangélico. Recebeu auxilio e conforto, começou a freqüentar os cultos, aprendeu sobre a Bíblia, salvação, quem era Jesus Cristo. Mas não ficou muito tempo. Como a filha e uma amiga passaram a freqüentar a igreja do Ministério Peniel, no Quarentenário, em São Vicente(SP), Maria acompanhou.
Aos poucos cresceu na fé, conheceu o amor de Cristo, envolveu-se com o Espírito Santo e assistiu o agir de Deus entre a família. As filhas Yara e Elaine passaram a freqüentar a igreja e, em dezembro, Maria, junto com a caçula Amanda, desceu as águas na praia do Gonzaguinha. Hoje, ela tem a convicção de que o Senhor está reescrevendo a história de pessoas que estavam perdidas, unindo laços que pareciam que jamais seriam ligados. O neto problemático, encontrou a salvação num ambiente onde muitos são derrotados. Mesmo preso, ele conheceu o poder de Deus e integra o exército de Cristo. Porém, para a satisfação de Maria ficar completa, ela ora para que o seu único filho homem tenha a mesma oportunidade. “Antes de ser meu, ele é filho de Deus”.
Embora nem tudo esteja resolvido, não há como comparar aos tempos de desespero. Desta vez, Maria sabe de onde virá o socorro. Depois que conheceu ao Senhor, os dias deixaram de ser monótonos, a vida passou a ter uma explicação. Deus se tornou tão presente em seu cotidiano que não consegue mais esquecê-lo. Diariamente, agradece a chance de, aos 60 anos, poder viver com esperança e de descobrir que ‘Jesus a ama’, acima de tudo. Um imenso banner, afixado logo na entrada da igreja, com fotos suas, da filha Amanda e dos irmãos, durante o ‘Batismo dos Mil’, representam, além da felicidade pela conquista num dia de verão, o momento da ruptura. Naquela manhã, o passado sombrio e sem sentido conheceu o ponto final e um futuro, iluminado pela luz de Jesus Cristo, foi inaugurado com as cores vivas e brilhantes que somente as novas criaturas possuem. “A minha vida tem sido uma benção”. Glória a Deus!

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Festival de Teatro Gospel do Guarujá

Pelo sétimo ano consecutivo, grupos evangélicos se revezaram no palco do Teatro Procópio Ferreira para interpretar e ministrar peças durante o Festival Gospel de Teatro Amador do Guarujá. Grupos da Baixada Santista e São Paulo, participaram, entre os dias 29 de julho e 2 de agosto, do evento e realizaram performances teatrais com pontos de vista cristãos.
Em 2008, a grande vencedora foi a peça Patinha Feia, encenada pelo grupo de teatro da Igreja Batista Peniel do Guarujá, que levou os prêmios de melhor espetáculo, direção, figurino, maquiagem e as indicações de melhor atriz e atriz coadjuvante. A peça contou a história de Lindinha (uma patinha que não se achava bonita) que resolve ‘evangelizar o mundo’ após ganhar uma Bíblia e inspirar-se no texto de Marcos 16:15. Depois de cumprir a missão, descobre a beleza espiritual que o evangelho produz na vida das pessoas. “Foi uma benção levar a palavra de Deus com a ajuda da arte”, comemorou Débora Ferreira Masson, líder do grupo que, em três meses, foi formado, ensaiou e faturou as premiações.
Juntamente com as disputas, oficinas de técnicas teatrais, sessões de debates com os jurados e apresentações de grupos de dança e pantomima, enriqueciam o evento. Criado em 2002 pelo ex-ator amador e, atualmente, pastor Cristiano da Silva, com o objetivo de ‘edificar vidas através da arte’, ‘promover comunhão entre as igrejas’ e ‘incentivar o desenvolvimento dos grupos teatrais’, o Festival Gospel está se tornando tradicional. Neste período, cresceu, contou com a presença de atores profissionais, como (o já falecido) Norton Nascimento, entrou para o calendário oficial de Guarujá e a cada edição, desperta o interesse de mais pessoas. Quando foi iniciado em 2002, durante os dois dias de evento, sete cenas, de até 15 minutos, foram exibidas para poucas pessoas. Este ano, nas cinco noites, mais de 3500 espectadores assistiram as 21 peças, com duração máxima de 40 minutos. Para 2009, os organizadores têm a expectativa de contar com a presença de grupos de outros estados. “Eu acredito que o Festival Gospel se tornará nacional”, profetiza Silva, que também preside a Comunidade Evangélica Bereana. “Vai chegar o dia que teremos muitos grupos e o Festival será uma tradição de Guarujá”, completa.
Além de ser um canal de benção para a cidade, o evento revela-se um bom campo de evangelismo, pois 30% do público, que costuma assistir às performances, não são alcançados, aumentando a responsabilidade de quem atua. “O ator cristão não representa, ministra”, afirma Vanessa Mariano, líder do grupo Ágape Company. Quando assistiram as peças do festival de 2002, Caryl Chesmann Sarda e Rita Valdete Bernardino Sarda não eram evangélicos e nem sonhavam que um dia estariam, no mesmo palco, representando uma peça que mostrasse a importância do evangelho na vida de uma família. Depois de tocados pela mensagem, converteram-se, ingressaram no teatro de sua igreja, (casados na vida real) eles interpretaram um divertido casal, na peça 7 Pecados Capitais. “Depois que nos convertemos nunca mais saímos da presença do Senhor”, garante Caryl.